quinta-feira, 21 de outubro de 2010

EM NOME DE DEUS


            Nesse segundo turno das eleições presidenciais estamos nos deparando com o duro combate entre os remanescentes na disputa pelo cargo de presidente da República. Todas as armas parecem ser utilizadas pelos presidenciáveis. O tom ríspido dos discursos, acusações caluniosas, quem fez mais e quem fez menos, quem tem mais ou menos experiência entre outras tantas coisas que vem em prejuízo do eleitor, confundindo-o e buscando o voto do cidadão de maneira pouco elogiável, mas que são coisas que estamos acostumados a ver no guia eleitoral (se é que se pode chamar isso de guia).
            O que mais me chamou a atenção, contudo, foi a nova arma utilizada por um dos candidatos a fim de retirar votos da outra: a religiosidade. Explora-se agora a fé cristã e protestante, o amor em Cristo. Beija-se crucifixo em comícios. Só falta ajoelhar-se e rezar o credo em cima do palanque. Por seu turno, seguimentos de uma retrógrada igreja católica e de grupos protestantes pedem que o eleitor não vote em determinado candidato, violando terrivelmente a livre escolha de cada cidadão votante, em nome de dogmas ultrapassados e dos quais não se pode contestar. Esqueceram-se esses religiosos que Jesus Cristo foi antes de tudo um revolucionário que contestou os dogmas existentes à sua época e que se rebelou contra o então estado vigente. Por isso que foi condenado à morte.
            Se um candidato taxa o outro de servir aos interesses estrangeiros em nosso país, o outro taxa o primeiro de ser ateu e não acreditar em deus.
            Temas relacionados à saúde pública e a felicidade das pessoas, como aborto e liberação de certas drogas e união homo-afetiva (casamento entre pessoas do mesmo sexo) chegam a ser colocados como verdadeiros tabus, impedindo uma correta discussão e formação de políticas públicas relacionadas. Enquanto isso, milhões de mulheres morrem todos os dias em clínicas clandestinas de aborto; milhões de pessoas tem tolhidas suas possibilidades de serem felizes em razão de uma discriminação absurda; deixa-se que clandestinamente milhares de meninos sequer cheguem a fase adulta em razão do uso contínuo de drogas, tudo por falta de políticas públicas relacionadas a esses temas, porque os mesmos são proibidos e sequer podem ser discutidos num programa eleitoral, num debate sério entre os candidatos porque alguém vai ser taxado de ateu, comunista, ou que não acredita na bíblia! Tais assuntos encontram forte resistência no Congresso nacional em razão de bancadas religiosas.
            A Bíblia, o Corão, os Vedas e outras escrituras podem reconfortar o espírito para quem acredita nelas, no entanto, não trazem as fórmulas (mágicas) de como desenvolver políticas públicas de qualidade que atendam a nossa população. Não é a toa que passados milhares de anos dessas religiões, nenhuma conseguiu resolver problema público algum, ao contrário, até atentaram contra a saúde pública, ao se rebelar certa vez a igreja católica contra o uso da camisinha. A bancada evangélica no Congresso, por seu turno, cai numa terrível contradição: apoia, por um lado, a pena de morte, mas por outro, é contra o aborto, isto é, pode matar quem já está vivo, mas quem ainda vai nascer não se pode tocar. Outras tantas discussões sobre temas importantes deixam de ser consideradas em razão dos tabus e preconceitos religiosos.
            Devemos ter em mente que o Brasil é um estado laico, isto é, desvinculado de quaisquer seitas religiosas, seja cristã, que já foi a religião oficial do Brasil, na época em que Estado e igreja se imiscuíam, seja protestante, seja umbandista, ou quaisquer outras.
            Por outro lado, as políticas públicas que o próximo governo terá que desenvolver não deverá pedir autorização do Estado do Vaticano nem da fé protestante para melhorar a qualidade de vida do povo, visto que o Brasil é um Estado Soberano.
            No próximo dia 31 de outubro ao darmos nosso precioso voto a um dos candidatos devemos antes de tudo ter em mente quais as melhorias que iremos ter em termos de qualidade de vida e em qualidade de serviços públicos, deixando definitivamente de lado velhos preconceitos e tabus intoleráveis na sociedade do presente século. Devemos pensar qual dos candidatos representa significativa melhora nas condições de vida da população e do país.

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